(sob reminiscências e mandingas)
Dedicado a mestre Pastinha, guardião maior da Capoeira Angola, que completaria hoje (05 de abril) 122 anos de vida
De bobeira, noites atrás, vagava eu pelo YouTube, à procura de registros de vadiações d’Angola, quando por acaso (?!) encontrei, logo à direita da tela, um link para uma das faixas de um dos mais empoeirados clássicos capoeirísticos, o disco “Capoeira Lua Negra - Mestre Paulo Lima - Volume 1” (lançado em meados dos anos 90, se não me engano), disponibilizada num vídeo em que - além do áudio, claro - aparecia apenas a capa do álbum.
Cliquei na raridade e...
Naquele momento, para pedir licença poética ao tijucano Eduardo Goldenberg, fui arremessado a 1998, ao Bailão do Renato (atualmente extinto), aqui em Marapé, no Espírito Santo, onde me iniciei na arte-luta da capoeira.
(Era uma noite de quarta-feira, com poucas estrelas, em 26 de março de 97, quando eu, aos 13 anos de idade, me matriculei na filial capixaba da Associação de Capoeira Navio Negreiro, cuja sede foi fundada em junho de 80, em Campos, no norte fluminense, pelo mestre Timbó, malandro das antigas, de fino trato, excelência em técnica e disposição - gás! - para o jogo duro, bem marcado, na cadência severa mas harmoniosa da Regional).
Enquanto o som do berimbau gunga, ritmado em toque de São Bento Pequeno, ecoava em minhas reminiscências, voltei a ser, naquele chão irregular do Bailão, o mesmo adolescente descalço, meio gordinho, com cabelo raspado, de abadá branco, com a corda ponteira (verde-e-branca, segunda graduação) amarrada à cintura, executando aus, queda-de-rins, meia-lua e armada, sob os ensinamentos de Tattoo, meu primeiro instrutor de capoeira, que atualmente, por infelizes acasos - ou pior: descasos - da vida, está afastado das rodas.
No toca-fitas do Tattoo, durante os treinos, rolava - invariavelmente - a cópia em K7 do disco do Capoeira Lua Negra, comprada no Shopping Popular, camelódromo do bairro Guandu, em Cachoeiro de Itapemirim. Ou, de quando em sempre, o afamado “Dose Dupla - Capoeira Cordão de Ouro - Mestre Suassuna e Dirceu” (que se tratava da remasterização em CD dos volumes 2 e 3 dos discos gravados por Suassuna entre o fim e o início dos anos 70 e 80) e o não menos notável “Capoeira Angola da Bahia”, de mestre Paulo dos Anjos, que já cumpriu sua volta ao mundo e que agora, lá em Aruanda, deve estar vadiando com Pastinha, Caiçara, Canjiquinha, Cobrinha Verde...
Foi um tempo marcado pelas minhas primeiras descobertas pelas rodas de capoeira. E a mais importante delas - continuo a divagar, divagarinho, negaceando em rolê - aconteceu lá pelo mês de maio daquele ano (em 98, repito), em Cachoeiro, num evento de batizado (ritual criado pelo pai da Capoeira Regional, mestre Bimba, em que o aluno, ao receber sua primeira graduação, também ganha seu apelido) e de entrega e troca de cordas, realizado pelo mestre Falcão, coordenador da Navio Negreiro por estas bandas de cá.
(No ano seguinte, em 99, Falcão viria a ser, de fato, meu primeiro mestre, mestre mesmo, mestraço, no sentido completo e complexo da palavra, a quem devo dinheiro, saúde e obrigação - “e o segredo de São Cosme quem sabe é São Damião, camará!” - e a quem peço bênção, sempre!, por respeito e reverência a ele, meu padrinho de crisma, que também - feito eu - dedica sua devoção aos orixás do Candomblé e às falanges da Umbanda, da maneira como deve, e precisa, ser a fé do povo brasileiro, sincretizada e sacramentada nos tambores da curimba e na santidade dos padroeiros católicos).
À descoberta, enfim.
Convidado especial do evento, mestre Gago, baiano de Feira de Santana, deu um curso de Capoeira Angola, embora ele não fosse um legítimo representante das tradições angoleiras. Nada que, no entanto, desmerecesse sua inquestionável experiência. Gago, que conviveu com grandes nomes da velha guarda da capoeiragem baiana, passou pra gente um pouco do que aprendeu em sua vivência por vadiações.
E foi ali, camará, que comecei a ver (a perceber com mais nitidez e riqueza de detalhes, essa é a verdade) o que era - e é - a Capoeira Angola, até então subjugada por mim, “idiota da objetividade”, apenas como um mero jogo de iniciação de roda. Ledo engano que cairia por terra, certamente derrubado por uma banda-de-frente.
Eu afirmaria que o simples fato de ver mestre Gago vadiar, com tamanha malícia e assombrosa agilidade, foi o bastante para que, a partir dali, a semente da Capoeira Angola - numa analogia cara ao mestre Jogo de Dentro, discípulo de seu João Pequeno de Pastinha - começasse a brotar em mim.
Uma semente que se fortificou e que, anos mais tarde (em 2007, pra ser bem exato, já no Rio de Janeiro), me levou definitivamente, após algumas negaças do destino (outra hora, prometo, a gente fala sobre isso), à tutela de meus atuais mestres, Brinco, Fred Mussa e Neco Pelourinho, que confiaram em mim a responsa de defender o escudo do Grupo de Capoeira Só Angola e, mais que tudo, o legado de mestre Moraes, herdeiro dos ensinamentos de seu João Grande, que também é de Pastinha, camará.
A ficha demorou a cair para o Falcão. Reação natural, óbvio, como previ. Mas, felizmente, ele compreendeu e apoiou minha decisão de abandonar o uniforme da Navio Negreiro - e a Capoeira Contemporânea - para vestir o manto preto-e-amarelo pastiniano. Até porque sempre tive pra mim que meu padrinho já esperava por isso. Talvez desde o curso de Capoeira Angola do mestre Gago, há quase 13 anos.
Tão logo se calou o berimbau gunga, no fim do áudio, e minhas reminiscências me devolveram à realidade. Foi quando me dei conta de que, lá num cantinho recôndito deste hoje convicto angoleiro, continua a existir o mesmo adolescente descalço, meio gordinho, com cabelo raspado, de abadá branco, com a corda ponteira amarrada à cintura, cada vez mais ávido por novas descobertas pelas rodas da capoeira. E da vida.
Ainda bem.
Comente
Postar um comentário