Tem gente que fala como escreve. Nelson Rodrigues, por exemplo, falava como escrevia, na opinião do repórter Geneton Moraes Neto, que entrevistou o gênio em seu apartamento, no Leme, numa tarde de maio, em 78, quando o Brasil venceu a seleção peruana, por 3 a 0, em pleno Maracanã, durante um amistoso.
E tem gente que escreve como fala. Nosso camarada Lion - ou melhor: Lionel Mota, designer, chargista exclusivo do Primo Cruzado (de traços limpos, segundo Andreazza) e autor do livro O Gran Circo do (In)consciente, o qual preciso, urgentemente, ler - é um desses que escreve como fala.
Lion, a bem (e a muito bem, obrigado) da verdade, mais do que escrever como fala, escreve como quem proseia. Nada a ver com prosa enquanto definição literária. Me refiro à palavra prosa, do bucólico verbo prosear, não encontrado nos livros de gramática, mas possivelmente ainda pronunciado pelos interiores e sertões deste nosso Brasil, tão cosmopolita quanto caipira, sô!
E é bem possível que seja assim mesmo - “prosear” - como se pronuncia o verbo na pequena Miracema, no noroeste fluminense, onde nasceu e adolesceu (e proseou, claro) Lion.
Seguinte, então: você, leitor, está num buteco qualquer do Rio. No Centro, na Lapa... de acordo com a tua preferência. Próximo ao balcão, de pé, para dar mais verossimilhança à cena. Lion chega ao buteco, debruça o cotovelo no balcão, pede uma Original e, goles depois, te cumprimenta e começa a bater um papo contigo.
Aí, ele vai te contar que, no último carnaval, uma puta o abordou na rua, enquanto estava a caminho do plantão no jornal. Vai te confessar que o visível estado de miséria dela - “que parecia não tomar banho há uns dois dias”, detalha - lhe causou extrema piedade, fato que o levou a pagar um lanche à garota, no bar mais próximo, e seguir para o plantão, oco por dentro, tomando demoradamente uma lata de cerveja.
Ou vai te falar das duas amigas - um possível casal de namoradas, o proseador especula, mas sem tom algum de preconceito - que, na poltrona à frente do ônibus em que ele ia para o trabalho (seu trajeto para o batente, como se vê, sempre rende uma nova prosa), cantarolavam uma canção em inglês, numa cumplicidade afetiva que, segundo Lion, dava cores àquela tarde ensolarada de domingo.
Aí, logo em seguida, ele muda o rumo do papo, relembrando porres e outras sacanagens...
Enfim, é essa a sensação que se tem - a de que se está num butiquim, entre um ou outro chope, ouvindo o Lion contar seus causos - quando a gente lê algumas de suas prosas, publicadas aqui no Primo Cruzado desde janeiro. E não há, na afirmação, indício algum de clichê de resenha de caderno dominical.
Totalmente desprovido e, sobretudo, desprendido de vícios literários e de marras e vaidades inteletualescas, seu estilo (sem estilo, ainda bem, ao contrário do Millôr, de quem sou devoto, como o Foca - com trocadilho, se me permite - sempre soube) nada mais é do que conversa de mesa, banal e, por isso mesmo, prazerosa, no sentido mais simples e completo da palavra. Verbalização de histórias, verídicas ou não, grafadas em crônicas. De modo que seus textos não são para ser lidos; mas, sim, ouvidos.
Agora, garçon, traga mais uma cerveja, porque o Lion tem uma nova pra contar.
Diz aí, meu velho!
ô Bezerra, assim fico sem graça...
ResponderExcluirGrande acuidade no comentário de Bezerra. Se você não conhece pessoalmente o Lionel, considere-se apresentado.
ResponderExcluirFica não, Lion. Continue a escrever - a contar, né? - teus causos. A casa, orgulhosa, agradece.
ResponderExcluirFalou e disse, Andre!
ResponderExcluirum brinde!
ResponderExcluirGrande Lion!
ResponderExcluirE Bezerra, essa entrevista do Geneton com o Nelson Rodrigues é sensacional, não? Mostra o escritor em estado bruto, pérolas e mais pérolas, um assombro. O Nelson Rodrigues era um gênio incontestável!
Olga, minha flor, a entrevista, de fato, é sensacional. Eu te agradeço, e muito, por presenteá-la a mim. Eu devia ter te citado, no texto, por tamanho feito, numa forma de gratidão. Vacilo meu. Mas tá valendo, não é mesmo, rs?
ResponderExcluirUm brinde, Lion!
ResponderExcluirQue isso, Bezerra?! Juro que nem lembrava que tinha sido eu a te apresentar. Ela está aí acessível, não fiz nada demais. Nada a agradecer.
ResponderExcluirTudo bem, querida!
ResponderExcluirNão sou da casa, mas já debrucei em alguns balcões e continuo a ouvir as prosas do Lion como se estivesse assistindo à sua conversa ao vivo. Além de crônicas, poesias e charges, Lion é de uma criatividade enorme. Em Miracema, na famosa terrinha, p os conterrâneos, já notávamos essa sua habilidade. Agora ficamos orgulhosos e felizes, de mesmo à distância podermos curtir suas peripécias e habilidade.
ResponderExcluirDigo nós, porque se estende, com certeza, a todos os que o conhecem... Aliás, acho q herdou um pouco das habilidades da mãe, que fazia uma aula de Literatura ser prazerosa, com suas - praticamente - interpretações das lições.
Angeline, se você é amiga de Lion, tenha a certeza de que é nossa amiga. E que é da casa, claro, que também é tua. No mais, como Obama disse a Lula: Lion é o cara!
ResponderExcluirSou uma amiga-irmã-fã-confidente e eternamente apaixonada por esse minino e seus causos. Sem qualquer malícia crianças, esse aí é alguém que trago comigo há muito tempo,ok?!
ResponderExcluirMas, voltando ao assunto, Bezzera,não é? Vc é tão f*da quanto! Adorei o texto e concordo plenamente com tudo que vc disse! Muito verdade!
Ele merece! Bjoks 'Leon purgante'!
Obrigada pelo aconchego, Bezerra!
ResponderExcluirIsso mesmo, Duda: acho sou eu, sim, o Bezerra, o próprio, pelo que dizem por aí. Fico feliz (de verdade) de ver que minha homenagem ao proseador trouxe ao blog amigos e amigas que, pelo que percebi claramente, estimam, e muito!, o nosso camarada Lion. Ah, obrigado pelo 'tão f*da quanto', rs! Apareça! Beijos!
ResponderExcluirDe nada, Angeline, rs!
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