quinta-feira, 17 de março de 2011

Amanhecendo

Essa aconteceu há alguns anos. Foi o corolário de uma noite muito louca e divertida. Em resumo, eu havia entrado às onze e pouca numa boatezinha minúscula, que nem sei se existe mais, ali em Ipanema ou Copa. Quando finalmente resolvo olhar o relógio, são quinze para as seis e estou dividindo a mesa com duas coroas junkies, que de cinco em cinco minutos iam ao banheiro para uma cafungada. Me despedi das duas, paguei a conta, recheada de chopes, camparis e cachaças e fui pra rua.

Um sol recém nascido me avisava que já era sábado. Por sorte, eu não teria de trabalhar nesse dia. Como estava a uma quadra da praia, resolvi passear um pouco antes de voltar para casa. Andei um pouco pelo calçadão, fazendo, óbvio, questão de dar uns passos na praia, só pra encher os tênis e as meias de areia. Me sentei na beira do calçadão e fiquei apreciando o mar. Praticamente ninguém estava por ali, um ou outro banhista matutino e um inusitado silêncio, só quebrado pelo murmúrio da maré.

Fiquei uns bons minutos ali, apreciando a paisagem, sentindo a brisa marinha e aproveitando o sol fraco da manhã. Quando me coloquei de pé para ir embora, uma mulher de seus quarenta anos sentou-se no banco imediatamente à minha frente. Resolvi sentar na outra ponta e voltei a apreciar o mar. Era uma mulher bonita, bem vestida, mas sem exageros. Por um momento, pensei em se tratar de alguém como as duas malucas que eu havia conhecido pouco antes. Acredito que ela tenha pensado até pior de mim, devido ao meu olhar meio ébrio e o sorriso canalha que eu devia estar usando no momento - eu tenho essa péssima mania quando bêbado, ter cara de canalha. Resolvi puxar papo, mas sem tirar os olhos do oceano.

- Bonito demais não é?

- Sim, muito lindo mesmo.

Algo naquelas quatro palavras acendeu um alerta em minha cabeça. De onde eu conhecia aquele sotaque? Era muito familiar para mim!

- Cê não é daqui não, né?

- Não, não sou não... sou de ... - e falou o nome de uma cidadezinha da Zona da Mata Mineira, que eu não me lembro mais qual era - estou aqui de férias. Vim com umas amigas, chegamos ainda há pouco, elas foram dormir direto, mas eu resolvi vir ver o mar. Acho muito lindo.

- Também, mas eu olho pouco para ele. Sou noturno, é muito por acaso que estou aqui hoje.

- Eu também. Se há dois meses alguém me dissesse que eu estaria fazendo o que estou, eu daria risada...

- Seria muita curiosidade perguntar o quê?

- Nem... é que me separei... - tentei emendar um pedido de desculpas, mas ela me cortou - não precisa se desculpar, foi melhor assim. Ele resolveu que não queria mais continuar casado. Aí vi que não nos amávamos mais. Éramos apenas amigos, afeto puro. Nossa filha já está casada, e bem, eu espero. Podemos tocar nossas vidas sem grandes problemas ou culpas.

Deixei que ela tomasse fôlego e continuasse. Ainda não olhávamos, os olhos ainda apreciando o quebrar das ondas e um rapaz que brincava com um são bernardo na espuma.

- Agora estou aqui. Com duas amigas, indo de carro até Santa Catarina, passear na Oktoberfest. Vamos parando em tudo que é canto, aproveitando o que pudermos até lá. Três descasadas redescobrindo como é viver sem marido ou filhos pra cuidar. Não é questão de desculpas, acho que poucas vezes estive mais livre, mais feliz - assenti com a cabeça e ela concordou, olhando-me de rabo de olho - Muito bom a gente poder fazer o que quer, quando quer e como quer, não é? Você é solteiro?

- Sim, terminei um namoro ainda há pouco, mas também estou bem, só curtindo. estava numa festa até agora.

- Pois é, estou tendo agora essa vida que você leva na idade que tem de fazer isso. Mas está sendo tão bom quanto. Querido... hora de eu me despedir. Tenho de dormir um pouco, que a programação que traçamos pra esse final de semana é bem puxada e animada.

- Também tenho de ir... se eu ficar aqui e os bares começarem a abrir, acabo não voltando pra casa de novo.

Rimos os dois e nos levantamos. Desejei-lhe um bom final de semana, uma boa solteirice e uma boa viagem. Finalmente nos olhamos nos olhos e ela deu uma piscadinha sapeca, o rosto iluminado.

- Pode deixar comigo... já até liguei para um ex de São Paulo para avisar que tem um lugar vazio no carro...

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