Antes de devolver os textos à turma, após corrigi-los, Cleide chamou a atenção para um relato que, de acordo com seu julgamento, foi escrito de maneira especial e brilhante.
A professora explicou que o autor do texto - cujo nome não quis revelar - surpreendeu suas expectativas, embora sempre acreditasse no potencial e na inteligência do aluno, uma vez que seu rendimento mediano, no decorrer dos bimestres, devia-se tão somente à sua preguiça.
Feitas as devidas considerações, Cleide começou a lê-lo, em voz alta, para toda a sala. Aí, meu camarada, qual foi minha surpresa, hein, ao ouvir as frases iniciais?! Era o meu relato. O silêncio e a perplexidade no olhar dos alunos - ainda me lembro bem - sublinharam a narração do texto.
No término da leitura, um fato impressionante: todos (!) os alunos olharam para mim, com a prévia (mas definitiva) certeza de minha autoria, revelada, logo em seguida, pela professora. Aquela silenciosa perplexidade, sem dúvidas, foi minha melhor recompensa.
Só sei que, depois desse episódio, jamais imaginei que a escrita fosse entrar novamente em minha vida. Sem pedir passagem, aliás, ao contrário do samba.
No início de maio de 2005, pouco mais de dois meses após aquela noite de março, assisti à uma matéria, no
Jornal Nacional, em que aposentados de algumas regiões do Brasil, numa infeliz coincidência, morreram em filas de hospitais, à espera de atendimento.
A notícia me levou à uma folha em branco, onde, por meio de uma crônica tortamente influenciada por um discurso jaboriano, pude manifestar, além de solidariedade aos familiares dos idosos falecidos, revolta com a saúde
púbica.
Com o título “De quem é a culpa?”, o texto - em vão - estava à procura de possíveis culpados por aquela displicência generalizada. Conformado, por fim, não lhe restou outra saída senão acusar o destino.
No dia seguinte, no meu trabalho, fui à sala de meu chefe:
- Toninho, lembra daquela vez em que tu pediu pra gente escrever um texto sobre qualquer assunto interessante? E que, se ficasse legal, tu tentaria uma publicação lá no Diário? Então... Dá uma lida aí no que escrevi... - falei com ele, antes de entregar minha crônica.
Pontuada por nítidas interjeições de entusiasmo em seu olhar, sua leitura já se mostrava - antes de tudo - grata com o resultado daquela proposta feita porres atrás.
- Bezerrão, tua crônica ficou boa pra cacete, hein? Claro: só precisa acertar uma ou outra vírgula. Mas, de qualquer forma, gostei mesmo do texto. Me faz um favor, então: salve a crônica num disquete, ainda hoje, que eu vou mandá-la pra redação do Diário, ok? - disse Toninho.
Pronto: foi a partir daquele momento, com a publicação de minha croniqueta no
Diário Capixaba, que a vida se cumpriu a traçar - de vez - minhas primeiras linhas pelas páginas jornalísticas, sequer cogitadas, até à época, pela mais remota e improvável de minhas hipóteses.
Orientado por meu mentor intelecto-boêmio (
com o perdão da redundância, professor), então, passei a rascunhar inúmeros parágrafos. Muitos destinados à lixeira, claro. Enquanto outros, talvez nem tão desprezíveis assim, foram lapidados pelas correções de Toninho.
Bem, pouco depois, ainda naquele mesmo ano, meus rascunhos voltariam a ocupar as páginas do
Diário, mas, desta vez, diagramados na coluna “Olhar cotidiano”, assinada por mim, que foi publicada - sempre às quintas - de julho a novembro de 2005.
Os temas de minhas crônicas - que nunca sofreram restrição alguma da redação - variavam de acordo com meu estado de humor ou, às vezes, de amor.
(
Dedicada à festa oficial de Muqui, um dos municípios vizinhos de Atílio Vivácqua e de Cachoeiro de Itapemirim, minha primeira publicação causou descontentamento e ira em muquienses - ou muquiranas, como chamei, de maneira
carinhosa, na coluna - que, segundo amigos da cidade, queriam me linchar).
Enfim, eu diria que o Toninho Miranda foi, de fato, meu primeiro professor de jornalismo. Foi ele quem me apresentou ao
Caderno B (do falecido
JB), editado - na ocasião - pelo Ziraldo, que se esmerava em fazer do suplemento um
revival das antológicas edições do
Pasquim.
Lá estavam, por exemplo, as entrevistas publicadas aos domingos, que traziam a informalidade coloquial (
opa, deslizei de novo na redundância, Fábio) nos diálogos, repletos de
nés? e outros vícios de linguagem tão caros e fundamentais à linguagem brasileira.
Também figuravam, pelas páginas do caderno pós-pasquiniano, alguns dos nomes já conhecidos dos leitores mais antigos do hebdomadário de Ipanema: Aldir Blanc, cuja escrita política e tijucanamente incorreta fez de mim um de seus mais indecentes fãs; Nataniel Jebão (e Fausto Wolff, respectivamente, seu alter ego); Reynaldo Jardim, o guerrilheiro da poesia...
A verdade é que, além do meu bom e velho Miranda, o
Caderno B de outrora, capitaneado pelo criador de Menino Maluquinho (síntese gráfico-artístico-afetiva de uma infância hoje sucumbida), exerceu fortes influências em mim, definindo, assim, meu norte jornalístico e intervindo em minha decisão de cursar a faculdade de Comunicação Social.
(continua)