sexta-feira, 12 de março de 2010

Quatro perguntas para: Paulo Halm

Antes de publicar essa entrevista, devo fazer uma confissão: não vi o filme "Histórias de amor duram apenas 90 minutos", primeiro longa como diretor de nosso entrevistado. O que, inclusive, me rendeu um gentil puxão de orelha do próprio. Eu havia até prometido não colocar no ar até assistir, mas pensei: quero divulgar, então vou cometer essa pequena irresponsabilidade e, depois, escrevo com mais calma sobre a história em si.

Até porque o papo, a pretexto de falar do longa, rendeu muito mais. Falamos sobre política, cinema, claro, amor e...sexo.

O título de seu primeiro longa como diretor é curioso. Por que histórias de amor duram apenas 90 minutos?

O título é uma brincadeira, obviamente, com a perenidade ou não do amor, da sua possibilidade restrita à fantasia e com o tamanho de um filme ideal, do ponto de vista comercial. Todo distribuidor e exibidor sonha com filmes com esta duração, que lhes permite cinco sessões diárias e tempo suficiente pra exibir trailers, comerciais, etc, e limpar a sala entre uma sessão e outra. As comédias, românticas ou não, via de regra, sempre duram uma hora e meia ou menos (basta ver os filmes do Woody Allen, por exemplo).

É próprio da comédia ser rápida, leve. Por outro lado, tem o lado metalinguístico: meu filme trata de um jovem escritor que está escrevendo um livro e o filme dialoga com esse processo de criação. E o conflito básico do nosso protagonista é se ater mais às questiúnculas sentimentais e afetivas de sua vida, preso a uma alienação amorosa, que o impede de resolver seus problemas mais básicos e urgentes.

Nosso herói, o Zeca (interpretado por Caio Blat), é um romântico incurável, quase um poeta do século XIX deslocado de seu tempo. Incapaz de tomar as rédeas de seu próprio destino, ele se deixa envolver por fantasias e devaneios. Em suma: vive no mundo da lua, num mundo ideal como os das comédias românticas, onde sempre, invariavelmente, o final é feliz.

Talvez o maior gancho jornalístico das reportagens sobre o filme seja o fato de você ser um roteirista consagrado. Isso é apenas um gancho ou, de fato, influencia no trabalho?

Bem, a maior parte das pessoas me conhece pelos meus trabalhos como roteirista, mas desde sempre persigo a direção. Sou formado em cinema pela UFF e minha perspectiva sempre foi a direção. Eu virei roteirista por uma necessidade de ter uma atividade profissional, dentro do cinema.

Como eu sempre escrevi e, segundo dizem, bem, me pareceu que o roteiro seria o ramo da atividade em que eu poderia atuar e me remunerar, paralelamente à direção. Tanto que eu fiz um monte de curtas, a maioria deles premiados, alguns documentários, trabalhei como diretor em televisão por um tempo.

Se eu levei tempo para dirigir meu primeiro longa deve-se a dificuldades de levantar as condições materiais e financeiras que me permitissem fazer um longa. E também pelo fato de, como roteirista, viver ocupado com as histórias dos outros e não ter tempo nem cabeça para me dedicar aos meus projetos pessoais. No mais, eu não vou deixar de escrever roteiros profissionalmente por causa do longa.

Aliás, depois que fiz o "Histórias...", eu trabalhei em diversos projetos, estou escrevendo o novo filme da Sandra Werneck, o José Joffily está interessado num outro roteiro que escrevi, trabalhei com a Rosane Svartman no seu "Desenrola" e no novo filme da Tizuka Yamazaki, "Aparecida", que ela está rodando.

Da mesma forma, não vou deixar de dirigir. Aliás, já estou com outro projeto de longa engatilhado, em fase de captação e que espero estar filmando até o final de 2010. Chama-se "Amanhã tudo volta ao normal" e conta as aventuras de três garotas ao longo do ultimo dia de carnaval carioca. Acredito ser totalmente possível exercer as duas funções, até porque gosto muito de escrever e quero continuar dirigindo.

De uns tempos para cá, o cinema brasileiro ficou com um pouco de vergonha do sexo, que, dizem, aparece sem vulgaridade, mas com coragem no longa. Mas seu filme é uma raridade nos dias de hoje. Por que essa relação do cinema brasileiro com o sexo é tão mal resolvida?

Acho que antes de uma postura moral, é um problema econômico. Como os filmes precisam de recursos para ser realizados, e esses recursos têm que ser obtidos com as grandes empresas, bancos, estatais, etc, há que submeter os filmes ao crivo dos diretores de marketing, que no final das contas são os que decidem em que projeto investir.

E tudo que esses caras querem é que a marca das empresas deles fiquem bem na fita. Então, qualquer coisa que possa vir a causar polêmica, desagrado, dúvidas, que de alguma forma possam macular a empresa que eles representam deve ser evitado e eliminado. Então, violência, sexo, drogas, conflitos, isso deve ser evitado.

Por outro lado, há uma subserviencia a um determinado segmento do publico, particularmente a um setor da classe média mais conservadora, que sempre rejeitou o cinema brasileiro. Para esse segmento, o cinema brasileiro se confundia com a pornochanchada dos anos 70, filmes mais populares, com boas doses de nudez e sacanagem.

Essa subserviência a essa platéia mais conservadora fez com que rejeitássemos aquilo que nosso cinema tinha de mais resolvido, a forma de expor a nudez, a sensualidade, a beleza de nossas atrizes ( e também de nossos atores), que são características evidentes da nossa cultura, do nosso povo. O brasileiro é muito mais bem resolvido do que os povos do hemisfério norte, no tocante à nossa exposição fisica, à nossa sensualidade, ao erotismo: basta irmos à praia para comprovar isso, não é preciso nenhuma tese acadêmica.

Esse retrocesso nos fez recuar na contramão do próprio cinema internacional. Fomos encaretando enquanto os cinemas americano e europeu foram se libertando das ridiculas cenas de sexo debaixo do lençol... Basta lembrar da Nicole Kidman com a bundinha branca arrebitada em "De olhos bem fechados" ou da ex-namoradinha da América Meg Ryan nua e fazendo blow-job em Mark Ruffalo no "Em carne viva".

Isso sem falar na exuberância sensual e erótica do cinema espanhol, Almodovar, Bigas Luna, Julio Meden. Penso que para agradar aos gerentes de marketing e a esse segmento de classe média mais conservadora, que em parte, é a maior fatia do público de cinema hoje em dia, fomos nos auto-censurando, nos encaretando, e pior, assumimos uma visão reacionária sobre a nudez e o sexo na arte.

A ponto de até atores inteligentes e sensíveis virem a publico fazer discursos carolas sobre uma possível exploração do corpo dos atores, pregando uma cruzada contra a nudez. Ora, o nu faz parte da história da arte desde tempos remotos, não há nada de pornográfico no "David" de Michelangelo, na "Venus", de Boticelli, na "Olimpia" e no "Piquenique na relva", do Manet, nos nus de Degas, de Renoir, ou mesmo na "Origem do Mundo", de Coubert, aliás, citada no filme. Somente uma distorção pervertida pode achar pornográfica ou obscena a nudez. O que, aliás, é a raiz do moralismo, né? Mas penso que isso está sendo superado pela própria platéia.

Você é um cara muito ligado em política, mas seu primeiro longa é de amor, outra raridade numa cinematografia em que os filmes mais marcantes são, salvo engano, sociais e políticos. O tema veio de uma boa história apenas ou você, propositalmente, quis mostrar que o cinema brasileiro pode, sim, fazer bons filmes de amor?

Talvez pelo fato de ser uma pessoa que atue politicamente, desde sempre, não tenho necessidade de fazer filmes que falem de algo que faço cotidianamente, enquanto cidadão. Há uma certa confusão entre atuação política e atividade artistica. Sou um cara de esquerda, e que tem uma carreira marcada por atuação política e associativa na área cinematográfica.

Fui militante e presidente da ABD, associação que congrega os curta-metragistas, uma das mais atuantes e combativas entidades na defesa do cinema brasileiro e também participei da AC ( Autores de Cinema, que organiza os roteiristas de cinema no Brasil ).

Não tenho nada contra quem faz filmes políticos e sociais. Eu mesmo já fiz: tem um filme meu, um média metragem chamado PSW, uma crônica subversiva, que é um filme sobre um desaparecido político durante a ditadura, que fala de ( e mostra ) tortura, de mortes cometidas durante os "anos de chumbo".

Fiz na década de 80, aliás,, quando ninguém estava muito interessado em falar nisso aqui no Brasil. Mas tenho outros interesses artísticos. Gosto e muito de comédia, gosto de temas intimistas e, ao mesmo tempo, universais, como o amor, o desejo, o sexo, e principalmente, o assunto que mais me interessa: o rito de passagem, a dolorosa, porém necessária, transformação do jovem em adulto, com todas as suas perdas, riscos, frustrações, etc.

Aliás, esse é o verdadeiro tema de "Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos". A dificuldade de amadurecer. Usar uma trama amorosa para falar disso é apenas uma estratégia para atrair o espectador. E falar desse tema de forma bem-humorada, quase cômica, inclusive ( eu discordo que o "Histórias..." seja uma comédia. É um filme engraçado, mas tem tanto de drama quanto de humor ) apenas reflete minha crença de que é possível ser sensível e reflexivo sem ser chato. Ao contrario, dá pra falar desses assuntos com humor e de forma descontraída.

15 comentários:

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  2. Tenho simpatia pelo cineasta Halm. Assisti ao filme "O resto é silêncio", um bonito filme sobre o mundo dos surdos. Um mundo que conheço de perto, pois que tenho um tio muito querido que é surdo de nascença. E sei a dureza que é para o surdo conviver com os ouvintes.

    Muito boa a entrevista! E verei com certeza o "Histórias de amor..."

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  3. O Halm, Pepê para os íntimos (não é o meu caso...rs...), é, acima de tudo, um grande cara: humor sensacional, inteligente e muito coerente nas opiniões dele. Eu gostei das posições que ele levantou sobre quem decide que filme deve ser patrocinado e outras coisas.

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  4. Essa coisa da arte estar submetida a jovens de 30 anos que entendem muito de MBA de marketing e nada de cinema é um puta tema para discussão.

    Porque reclamam muito da interferência do Estado na arte, mas eu acho muito mais democráticos os editais públicos de patrocínio do que as decisões tomadas por empresas privadas.

    As empresas públicas procuram ter uma preocupação com diversidade, com arte, com ganhos sociais que os MBAs de marketing não têm.

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  5. E a história do Pedro Cardoso, reclamando da nudez, realmente, foi um retrocesso na arte.

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  6. Foca, a idéia da entrevista por si já é boa. E a entrevista realmente tá muito boa.

    Os 90 minutos estarem relacionados à durabilidade, em média, de um filme foi uma boa sacada, não?

    E bom que o cineasta, embora ativista político, observe que "Há uma certa confusão entre atuação política e atividade artística". Porque a arte geralmente perde, quando o artista mistura as duas atividades sem limites.

    O Pedro Cardoso devia assistir às pornochanchadas, onde sexo e nudez transitam de maneira leve e natural.

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  7. Acho que essa confusão entre artista e ativista é uma certa herança da ditadura, não. Sei, já que não aquela época. Mas o que já ouvi falar é que, naquela época, como a imprensa era censurada e os políticos calados, os artistas se sentiam na obrigação de usar sua voz para falar o que não podia ser dito.

    Mas, hoje, com a democracia, pode-se dividir os dois lados. O cara pode ser político na vida pessoal e fazer sua arte sobre o tema que quiser.

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  8. Obrigado pelo elogio `a entrevista. Na verdade, quero estrear essa seção "Quatro perguntas para" e torná-la mais constante.

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  9. Tentei na entrevista usar um recurso que tínhamos no Tribuneiros, que é o de não editar a entrevista. Aliás, esse é um recurso que era comum no Pasquim e muita gente começou a usar.

    O Pasquim, aliás, tinha uma fórmula parecida com a do Tribuneiros: uma entrevista feita em grupo, em que tudo era publicado, até piadas fora de hora, comentários, etc. Eu gosto dessa fórmula. Mas acho que, em blog, pode assustar, porque a entrevista ocuparia uma página inteira.

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  10. Queria pedir também sugestões de outros nomes. Eu não sei se um blog pequeno e sem tanta visibilidade pode conseguir outros entrevistados. O caso do Paulo foi uma raridade, porque ele é muito boa-praça e acessível. Mas eu juro que tentarei.

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  11. A ditadura brasileira foi um momento muito particular, em que a arte foi usada com propriedade em favor da política. Em que muita gente talentosa fez da arte uma voz poderosa. Muitos com grande coragem, aliás. Repare que usei a palavra "limites", Foca.

    A entrevista ganha muito sem edição. Principalmente quando o entrevistador é bom e faz boas perguntas, como no caso.

    Gostei muito da novidade. Já espero por outra.

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  12. Uma coisa que me incomodava nessa coisa da arte engajada era considerar um inimigo quem não fosse militante. Por exemplo, Roberto Carlos. Uma bobagem.

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  13. Otima entrevista e otima a ideia de ser a primeira de muitas.

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  14. Preciso de dicas de nomes, Amanda. Você teria algum?

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  15. Olga, a parte de não ter edição é bacana, né? Inclusive, porque evita distorções.

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