
Você sabe muito bem que eu estava de saco cheio de você. Sério. Tá, eu sei que já disse isso milhões de vezes antes, mas este ano, você abusou. Acha que eu sou palhaça? Mulher de malandro? Que gosto de ser feita de boba? Sabe o que eu tive que ouvir dos outros esse ano por sua causa? O quanto debocharam de mim? Você acha que eu gosto?
E as suas promessas de infelicidade? De um ano negro por vir? Você pensa que eu esqueci? A sua falta de esforço, de comprometimento? Eu fui tão fiel, por tantos anos...Tão fiel e você faz pouco de mim. A sua falta de consideração pelos meus anos de dedicação, de apoio, de amor gratuito, altruísta, sem ganhar nada de volta.
Sim, você me deu momentos de grande felicidade, mas não venha dizer que nossa relação não é desigual. Eu dou muito mais que recebo, e isso cansa sabe? Cansa. Desgasta. Chega uma hora em que se tem que pensar primeiro em si. Quando não vale mais a pena. Não compensa. É melhor, em respeito ao nosso passado, ficar por aqui. Guardamos e preservarmos os momentos bons, e nos poupamos de mais dor e desgaste.
Eu só estou falando com você agora porque confesso que você me surpreendeu. Eu tinha certeza de que, desta vez, você estava acabado. Que deste ano não passava. E que não esperasse mais nada de mim ano que vem. Você não teria este direito.
Não pense que eu já superei o trauma do ano passado. Você sabe o quanto eu investi naquilo? Quanta esperança você me deu... Quanto e como doeu. Já estava fazendo planos da minha vida sem você. Mais tempo livre, mais filmes, mais livros. Menos desgaste emocional. As alfinetadas e gracinhas que ia deixar de ouvir por sua causa. As vergonhas que você me fazia passar. Ah, vamos ver pelo lado bom: quantas coisas eu ia ganhar. Como pude perder tanto tempo com você?
Mas achei que você vinha mudando. Aos poucos. Devagar e sempre. Ganhou fôlego. Está disciplinado. Focado. Mudou de companhias. Deixou de lado aqueles fanfarrões que diziam que você ia brincar e está cercado de gente mais madura, mais séria. Resolveu recuperar o tempo perdido. Foi me supreendendo. Fazendo o improvável. Mais: o impossível. Eu confesso que não esperava mais nada de você.
Você tá me surpreendendo, confesso. E comecei a me lembrar porque eu te amava tanto. Estou vendo de novo as características que admirava tanto, e se você andava irreconhecível, estou reconhecendo de novo aquele que eu amava.
Aquele conformismo, aquele derrotismo, aquela vocação para a mediocridade, aquela tendência a se conformar com pouco, aquilo não combina com você. Não. O meu você é aquele grande, enorme, imenso. De glórias e vitorias mil. Do sangue do encarnado. Esperançoso. Vibrante. Fidalgo. Você para mim é aquele que não desiste.
Eu achava que você tinha esquecido quem era. Tinha esquecido seu passado, sua história. Olhe para trás. Lembre-se de quem você é. Tudo que você já fez. Tudo que você representa, e com isso, tudo que você é capaz. Assim você tá me convencendo que tem recuperação. Que você pode.
E o melhor é que eu acho que você está acreditando também. Você está vendo o que você está fazendo? Que bom é recuperar a dignidade, olhar para os outros de cabeça erguida? Eu até andei ouvindo uns elogios sobre você. As pessoas estão gostando. Você está causando uma ótima impressão. Tem gente de fora até torcendo por você, sabe? Estou ficando tão orgulhosa...
Bom, eu vou te dar uma segunda chance. Ok, já estou te dando. Você está fazendo por merecer. Espero que continue assim. Não é so por mim, não. É por você, que merece. É por quem você realmente é. Por quem eu vejo que você é. Já conseguiu que eu não te abandone no fim do ano. A sua dignidade, você recuperou. Meu presente de Natal? Ah, você sabe o que eu quero. Se eu prefiro a Série A ou a Sul-Americana? Se só puder me dar um? Não importa. O mais importante você já me deu.
A recuperação da confiança e a reafirmação do amor.




