terça-feira, 12 de abril de 2011

Aos leitores

Depois de três anos de muitos grandes momentos nesse espaço, decidi interromper meu "trabalho" no Primo Cruzado.

O Primo foi uma das melhores redações em que trabalhei. Sim, porque se nunca tivemos um lugar, fisicamente falando, temos e tivemos as pessoas certas.

Em especial, Lion e Bezerra, companheiros que continuam tocando esse blog com brilhantismo. Lion, multitalentoso amigo, conheci como competentíssimo profissional de arte de um grande jornal e vi se revelar aqui um cronista genial e chargista de mão cheia. Posso garantir que é bom músico também, mas aí vocês vão ter que comprar o CD.

Bezerra é nossa revelação. Comentarista de tiradas memoráveis no Tribuneiros, no meu antigo blog Rafa, O Foca e aqui, se mostrou um rei das palavras rápidas, do humor e do nonsense.

Nesse post especial, não posso deixar de lembrar quem, além dos dois amigos citados, me fez companhia aqui.

Jorge Birolha, hoje editor de primeiro caderno de um grande jornal carioca.

Rodrigo Cambará, editor de suplemento do mesmo jornal.

Jane Jones, repórter, titular de um blog de grande sucesso e roteirista da próxima minissérie da TV Globo.

Vic Vader, redatora publicitária e blogueira de sucesso.

Makossa, historiador e blogueiro.

Karluv, cineasta, atualmente morando em Londres.

Zé Carioca, diretor de criação de uma importante agência de publicidade.

Talvez essa tenha sido a melhor equipe com quem trabalhei.

E os melhores leitores, com toda certeza.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Luto e esperança

Num dia como hoje, não tenho muito o que falar. Tenho até algumas opiniões, principalmente sobre a cobertura da imprensa.

Mas, nesse momento, o aspecto humano é maior do que tudo.

Por isso, só peço ao leitores que, independente do que acreditem, reflitam um pouco e tentem fazer o possível por um mundo melhor.

Dedico esse pequeno texto ao amigo Carlos Andreazza, por quem nutro uma admiração e, por que não dizer, amor fraterno, independente de nossas muitas diferenças ideológicas. E sei que a recíproca é verdadeira.

Somos humanos e só precisamos nos dar conta de que tudo mais é bobagem, vaidade, interesse menor.

A disputa

O bar era desses tradicionais. Até bonitinho, como esses que pululam por aí, mas onde o luxo mesmo era a cerveja estupidamente gelada e o tempero indecente do tira-gosto. Estava na calçada, com uns amigos, novos e antigos, a cerveja quebrando o calor senegalesco do verão carioca, as gargalhadas no meio tempo dos goles, quando uma das moças volta do banheiro.

- Tá rolando um bate-boca daqueles lá dentro.

E voltam-se a atenção para os copos, para a carne-seca com aipim e para as piadas. E tudo vai bem quando a gritaria interrompe a história de um casal fagocitoso nas areias do Arpoador. E é gente se embolando, cadeira voando, mulher berrando, puxando seus homens do meio do bolo. A briga vinha em direção à mesa, levantam-se todos, cada um protegendo o próprio copo,  assistindo a cena deplorável. Depois de uns bons sopapos a turma do deixa-disso enfim consegue separar os brigões e mandar cada um pra um lado.

Passado o susto volta-se para a mesa e o papo vai tomando novamente rumo. Em breve a gelada já vai fazendo bem e a briga se torna lembrança pegando poeira nos cantos da memória. Lá pelas tantas, todo mundo já nos doze avos, pede-se a conta enquanto se decide se vamos mudar de boteco ou voltar para casa. Conta paga, despedidas e resolvo pegar mais uma... a saideira de praxe para me acompanhar na volta - ou até o próximo bar, o que eu resolver no caminho ‑ chamo o garçom amigo pra matar a curiosidade:

- Mas e aí? Qual o problema da briga?

- Mulher.

Tinha de ser, quase sempre o problema é saia. Insisto
- Mas foi um olhando a mulher do outro?

- Pior. A mulher de um era a ex do outro. Ele viu e quis devolver. O cara não aceitou e aí já viu, né?

terça-feira, 5 de abril de 2011

Bezerra, moleque-capoeira

(sob reminiscências e mandingas)

Dedicado a mestre Pastinha, guardião maior da Capoeira Angola, que completaria hoje (05 de abril) 122 anos de vida

De bobeira, noites atrás, vagava eu pelo YouTube, à procura de registros de vadiações d’Angola, quando por acaso (?!) encontrei, logo à direita da tela, um link para uma das faixas de um dos mais empoeirados clássicos capoeirísticos, o disco “Capoeira Lua Negra - Mestre Paulo Lima - Volume 1” (lançado em meados dos anos 90, se não me engano), disponibilizada num vídeo em que - além do áudio, claro - aparecia apenas a capa do álbum.

Cliquei na raridade e...

Naquele momento, para pedir licença poética ao tijucano Eduardo Goldenberg, fui arremessado a 1998, ao Bailão do Renato (atualmente extinto), aqui em Marapé, no Espírito Santo, onde me iniciei na arte-luta da capoeira.

(Era uma noite de quarta-feira, com poucas estrelas, em 26 de março de 97, quando eu, aos 13 anos de idade, me matriculei na filial capixaba da Associação de Capoeira Navio Negreiro, cuja sede foi fundada em junho de 80, em Campos, no norte fluminense, pelo mestre Timbó, malandro das antigas, de fino trato, excelência em técnica e disposição - gás! - para o jogo duro, bem marcado, na cadência severa mas harmoniosa da Regional).

Enquanto o som do berimbau gunga, ritmado em toque de São Bento Pequeno, ecoava em minhas reminiscências, voltei a ser, naquele chão irregular do Bailão, o mesmo adolescente descalço, meio gordinho, com cabelo raspado, de abadá branco, com a corda ponteira (verde-e-branca, segunda graduação) amarrada à cintura, executando aus, queda-de-rins, meia-lua e armada, sob os ensinamentos de Tattoo, meu primeiro instrutor de capoeira, que atualmente, por infelizes acasos - ou pior: descasos - da vida, está afastado das rodas.

No toca-fitas do Tattoo, durante os treinos, rolava - invariavelmente - a cópia em K7 do disco do Capoeira Lua Negra, comprada no Shopping Popular, camelódromo do bairro Guandu, em Cachoeiro de Itapemirim. Ou, de quando em sempre, o afamado “Dose Dupla - Capoeira Cordão de Ouro - Mestre Suassuna e Dirceu” (que se tratava da remasterização em CD dos volumes 2 e 3 dos discos gravados por Suassuna entre o fim e o início dos anos 70 e 80) e o não menos notável “Capoeira Angola da Bahia”, de mestre Paulo dos Anjos, que já cumpriu sua volta ao mundo e que agora, lá em Aruanda, deve estar vadiando com Pastinha, Caiçara, Canjiquinha, Cobrinha Verde...

Foi um tempo marcado pelas minhas primeiras descobertas pelas rodas de capoeira. E a mais importante delas - continuo a divagar, divagarinho, negaceando em rolê - aconteceu lá pelo mês de maio daquele ano (em 98, repito), em Cachoeiro, num evento de batizado (ritual criado pelo pai da Capoeira Regional, mestre Bimba, em que o aluno, ao receber sua primeira graduação, também ganha seu apelido) e de entrega e troca de cordas, realizado pelo mestre Falcão, coordenador da Navio Negreiro por estas bandas de cá.

(No ano seguinte, em 99, Falcão viria a ser, de fato, meu primeiro mestre, mestre mesmo, mestraço, no sentido completo e complexo da palavra, a quem devo dinheiro, saúde e obrigação - “e o segredo de São Cosme quem sabe é São Damião, camará!” - e a quem peço bênção, sempre!, por respeito e reverência a ele, meu padrinho de crisma, que também - feito eu - dedica sua devoção aos orixás do Candomblé e às falanges da Umbanda, da maneira como deve, e precisa, ser a fé do povo brasileiro, sincretizada e sacramentada nos tambores da curimba e na santidade dos padroeiros católicos).

À descoberta, enfim.

Convidado especial do evento, mestre Gago, baiano de Feira de Santana, deu um curso de Capoeira Angola, embora ele não fosse um legítimo representante das tradições angoleiras. Nada que, no entanto, desmerecesse sua inquestionável experiência. Gago, que conviveu com grandes nomes da velha guarda da capoeiragem baiana, passou pra gente um pouco do que aprendeu em sua vivência por vadiações.

E foi ali, camará, que comecei a ver (a perceber com mais nitidez e riqueza de detalhes, essa é a verdade) o que era - e é - a Capoeira Angola, até então subjugada por mim, “idiota da objetividade”, apenas como um mero jogo de iniciação de roda. Ledo engano que cairia por terra, certamente derrubado por uma banda-de-frente.

Eu afirmaria que o simples fato de ver mestre Gago vadiar, com tamanha malícia e assombrosa agilidade, foi o bastante para que, a partir dali, a semente da Capoeira Angola - numa analogia cara ao mestre Jogo de Dentro, discípulo de seu João Pequeno de Pastinha - começasse a brotar em mim.

Uma semente que se fortificou e que, anos mais tarde (em 2007, pra ser bem exato, já no Rio de Janeiro), me levou definitivamente, após algumas negaças do destino (outra hora, prometo, a gente fala sobre isso), à tutela de meus atuais mestres, Brinco, Fred Mussa e Neco Pelourinho, que confiaram em mim a responsa de defender o escudo do Grupo de Capoeira Só Angola e, mais que tudo, o legado de mestre Moraes, herdeiro dos ensinamentos de seu João Grande, que também é de Pastinha, camará.

A ficha demorou a cair para o Falcão. Reação natural, óbvio, como previ. Mas, felizmente, ele compreendeu e apoiou minha decisão de abandonar o uniforme da Navio Negreiro - e a Capoeira Contemporânea - para vestir o manto preto-e-amarelo pastiniano. Até porque sempre tive pra mim que meu padrinho já esperava por isso. Talvez desde o curso de Capoeira Angola do mestre Gago, há quase 13 anos.

Tão logo se calou o berimbau gunga, no fim do áudio, e minhas reminiscências me devolveram à realidade. Foi quando me dei conta de que, lá num cantinho recôndito deste hoje convicto angoleiro, continua a existir o mesmo adolescente descalço, meio gordinho, com cabelo raspado, de abadá branco, com a corda ponteira amarrada à cintura, cada vez mais ávido por novas descobertas pelas rodas da capoeira. E da vida.

Ainda bem.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

A família Bolsonaro

É uma peça de humor da pior qualidade a entrevista dada pelos filhos do deputado Jair Bolsonaro, defendendo-o das "injustiças" que ele está sofrendo. Separei dois trechos.

“Ele tem uma opinião que é polêmica, que vai contra o politicamente correto e que tem que ser respeitada. (...) O que a família Bolsonaro faz nada mais é do que valorizar conceitos e valores da família, valores éticos, valores morais e certamente isso incomoda muita gente”, afirmou Flávio Bolsonaro.

Não vou nem falar do suposto racismo, porque tenho para mim que o Bolsonaro não entendeu a pergunta da Preta Gil. Mas homofobia é um valor ético e moral? Que moral é essa que defende qualquer tipo de discriminação?

Acho curioso que os filhos façam uma ode ao direito de opinião e o pai defenda com unhas e dentes o Regime Militar. Me parece paradoxal. Afinal, nenhuma ditadura é lá muita amiga de qualquer tipo de liberdade.

Falando no Regime Militar, tem uma declaração dos filhos a respeito.


"Naquele tempo havia segurança, havia saúde, educação de qualidade, havia respeito. Hoje em dia a pessoa só tem o direito de quê? De votar. E ainda assim vota mal."

Não vou abrir uma polêmica sobre o que se tinha ou não tinha naquela época. Só quero dizer que numa coisa eu concordo com a família Bolsonaro: muita gente vota mal.

Afinal, os três Bolsonaros estão em cargos públicos.

Mas, numa democracia, isso é fácil de corrigir.